Passaporte Botânico: Japão🇯🇵 O Crisântemo

Há plantas que decoram jardins e há flores que fazem parte da história de um país. No Japão, o crisântemo é muito mais do que uma planta ornamental: é um símbolo de longevidade, uma presença constante nas tradições culturais e até um emblema da família imperial.

Mas sabias que esta planta, tão profundamente associada ao Japão, tem uma história que começou noutro país?

Na primeira edição do nosso Passaporte Botânico, viajamos até à Terra do Sol Nascente para descobrir como o crisântemo (Chrysanthemum), conhecido em japonês como Kiku, conquistou um lugar tão especial na cultura japonesa.

 

Uma planta com uma longa história

Embora seja um dos símbolos mais emblemáticos do Japão, a história dos crisântemos ornamentais começou na China, onde são cultivados há mais de 2500 anos. Inicialmente valorizados pelas suas utilizações medicinais e culinárias, os crisântemos foram também conquistando um lugar de destaque na arte, na literatura e nos jardins.

A sua introdução no Japão ocorreu há mais de mil anos, tendo adquirido particular importância durante o período Heian (794–1185), quando a aristocracia japonesa começou a apreciar estas flores em jardins, celebrações e encontros culturais.

Com o passar dos séculos, os horticultores japoneses desenvolveram inúmeras variedades, explorando diferentes cores, tamanhos e formas de floração. O crisântemo tornou-se assim não apenas um elemento da cultura japonesa, mas também uma verdadeira expressão da sua tradição.

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Crisântemo e a família imperial Japonesa

Sabias que o crisântemo é um dos símbolos mais reconhecidos da família imperial japonesa?

A sua associação à monarquia remonta ao século XIII, sendo frequentemente atribuída ao imperador Go-Toba, que demonstrava uma particular admiração por esta flor.

O emblema imperial, conhecido como Kikukamonshō, apresenta um crisântemo estilizado com 16 pétalas. Este símbolo tornou-se tão importante que a própria monarquia japonesa é frequentemente designada, sobretudo em contextos internacionais, por Trono do Crisântemo.

Embora o Japão não tenha uma flor nacional oficialmente estabelecida por lei, o crisântemo e a flor de cerejeira (Sakura) são amplamente reconhecidos como dois dos seus principais símbolos florais.

E a importância do crisântemo não fica pelos palácios imperiais!

Uma flor que aparece no passaporte e nas moedas

Se alguma vez observaste um passaporte japonês, talvez tenhas reparado na flor dourada que decora a capa. Sim, é um crisântemo!

O desenho utilizado nos passaportes apresenta uma versão estilizada de 16 pétalas.

O crisântemo também aparece na moeda japonesa de 50 ienes, mostrando como esta flor ultrapassou os jardins e passou a fazer parte dos símbolos do quotidiano japonês!!

Uma flor tão importante que até viaja pelo mundo nos passaportes — não podíamos ter escolhido melhor protagonista para estrear o nosso Passaporte Botânico!

Kiku: a flor da longevidade e das celebrações

No Japão, o crisântemo está tradicionalmente associado à longevidade, à saúde e à felicidade. A sua floração, geralmente associada ao outono, transformou-o também num dos grandes símbolos desta estação.

Uma das celebrações mais antigas ligadas à flor é o Chōyō no Sekku, celebrado a 9 de setembro e conhecido como Festival do Crisântemo. Com origens em tradições chinesas, esta festividade está associada a desejos de saúde e de uma vida longa.

Mas a admiração japonesa pelo crisântemo não se limita a esta data. Durante o outono, realizam-se diversas exposições e festivais conhecidos como Kiku Matsuri, onde os visitantes podem apreciar variedades extraordinárias e composições florais cuidadosamente preparadas.

Algumas destas exposições são verdadeiras obras de arte hortícola. Existem crisântemos com flores enormes, outros com pétalas finas e alongadas e até plantas conduzidas ao longo de estruturas para criar impressionantes cascatas de flores.

No Japão, cultivar crisântemos é também uma arte aperfeiçoada ao longo de gerações.

Uma flor, diferentes significados pelo mundo

É curioso como a mesma flor pode representar sentimentos tão diferentes consoante o país onde nos encontramos.

No Japão, o crisântemo está associado à longevidade, à celebração e à tradição imperial. Já em vários países europeus, incluindo Portugal, está profundamente ligado à memória e à homenagem aos que partiram.

Durante o Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados, os crisântemos são frequentemente utilizados para decorar cemitérios e homenagear familiares e amigos falecidos.

A sua floração outonal, resistência e diversidade de cores contribuíram para esta tradição, que permanece presente na cultura portuguesa.

Assim, enquanto no Japão o crisântemo evoca frequentemente uma vida longa, em Portugal é também uma flor de recordação e saudade.

Duas culturas, diferentes tradições e uma mesma flor a transportar significados que atravessam gerações.

Próxima paragem?

O crisântemo é um excelente exemplo de como as plantas podem contar histórias que vão muito além da sua origem geográfica. Uma flor cultivada há milénios, transformada num símbolo imperial e ainda hoje usada em jardins, festivais e tradições por todo o mundo.

Com o nosso Passaporte Botânico, queremos descobrir precisamente isso: as plantas que marcaram diferentes países, as histórias que transportam e as curiosidades que talvez ainda não conheças.

A nossa primeira viagem termina no Japão, mas há muitos outros destinos botânicos à espera de serem descobertos.

Qual será a próxima paragem? 🌍🌿

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Marisa Lourenco

Enga Agrónoma e PhD student em Ciências agrárias na Universidade do Porto, nunca se cansa de falar sobre plantas! Adora todas as plantas mas as suas preferidas são as Aglaonemas, ZZ e Scindapsus. Pronta para partilhar todas as dicas e curiosidades sobre o mundo das plantas!

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